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Mensagem do Pe. Joãozinho SCJ

Irmãos ,amigos, amigas e leitores,

Paz e solidariedade.

Os últimos acontecimentos do Brasil deixam claro que nunca foi fácil construir uma democracia ou sair da pobreza crônica. Nem que jogassem trilhões de dólares a fundo perdido no Brasil não sairíamos da pobreza. Brasileiros espertos dariam um jeito de se apossar daquele dinheiro. É que no Brasil O OUTRO perdeu muito da sua importância. Basta ver o aumento desenfreado da criminalidade nas nossas cidades e agora, no campo. Um país mostra que já perdeu a noção da importância do outro pelos seus índices de criminalidade, pelo descaso com as crianças e os velhinhos, pelo descaso com a saúde e pelo grau de erotismo e pornografia que ostenta, porque nesses casos o outro vira objeto e pára de ser sujeito da História.

Se não houver mudança de atitude e, da parte de todos a consciência de que nem o pobre sai sozinho da sua pobreza, nem os mais afortunados saem do seu egoísmo sem a ajuda de todos o Brasil vai ser um país com EU DEMAIS E O OUTRO DE MENOS.  Gerações inteiras foram educadas a serem espertas e preferem seguir mais Pedro Malasartes do que Irmã Dulce. O Malasartes vendia queijo que, depois, se descobria serem pedras. Irmã Dulce com sua bondade para com os seus doentes conseguia quase tirar leite de pedra. Com pouco dinheiro fazia mais do que grandes instituições do gênero com dez vezes mais dinheiro do que ela.

Sem uma revisão dos impostos,  do sistema tributário como um todo e da Previdência; sem que os mais afortunados cedam; sem apoio à pequena industria e à pequena propriedade; sem vontade de servir e de trabalhar duro; sem um combate sério ao desperdício, que é umas maiores chagas do Brasil, sem SOLIDARIEDADE não sairemos do atoleiro em que estamos há séculos. Os bens do Brasil nunca chegaram aos pobres. Somos um país de Epulões cercados de Lázaros por todos os lados...(Leia Lucas ............)

SOLIDARIEDADE é o que acontece quando pessoas e corporações, param de perguntar

           -E eu ? Porque eu ? E o nosso dinheiro? E as nossas conquistas? E o nosso lucro de ontem?  E os meus direitos adquiridos?

  e começam a perguntar : - E o futuro do país? E essa multidão sem perspectiva?   E os outros? E os mais pobres do que eu ? E os sem teto, sem casa, sem terra e sem emprego? O que vai ser deles?

  No Brasil felizmente há milhares que lutam pelos outros e quase não têm tempo para si mesmos. Somos um dos paises com o maior número de voluntários que trabalham de graça pelos outros. É o lado bom. Mas há um exército de gente que pensa apenas em si e no seu sucesso. Se der para desviar uma verba e cavar emprego para um parente é o que farão, mesmo que ele seja menos preparado do que algum outro, até mais pobre do que ele. Olha-se ainda demais para o próprio umbigo. Ainda teimamos no dá um jeitinho que é sumamente injusto e indecente. Ainda são demais os espertinhos que furam fila nos bancos, nos supermercados e nas estradas. É o jeitinho egoísta de quem se acha mais igual do que os outros.

  Nem todo sujeito simpático consegue ser solidário. Ainda somos muito do estilo "Mateus, olhe os teus que eu olho os meus". Até no jeito de pregar há milhões que passam o tempo todo falando de si, pedindo para si , ensinando uma fé pessoal cheia de  eu e Deus, Deus e eu,  salva-me, eu te louvo, eu, eu, eu. Na vida prática escrevem Deus com d minúsculo e eu com E maiúsculo... Gastam mais tempo falando de si do que de Deus.

  Adoram dar testemunhos e contar história deles e Deus. Tem "eu" demais na pregação de alguns católicos e evangélicos. Falam demais de si mesmos e do que fizeram ou Deus fez por eles. Está faltando falar do que Deus fez por outros santos muito mais santos do que nós. Ao invés do testemunho pessoal, porque  alguma vez não contam a história de Vicente de Paula, de Francisco, de São Benedito ,de Santo Antonio de Frederico Osanam, Madre Tereza, Irmã Dulce, Dom Helder e outros?

  Como professor de comunicação, às vezes tiro uma semana para gravar e analisar o que vai pela televisão. Espanta-me ver como centenas de apresentadores ou entrevistados, inclusive religiosos, se apresentam como modelo e falam mais de si do que os outros. Contei, num só programa, um religioso que falou 112 vezes seu próprio nome e 144 vezes a palavra "eu". 

  Sabemos mais detalhes da vida amorosa dos artistas de novelas ou de cantores do que de gente que passou a vida cuidando dos outros.  A meu ver, quando, para cada dez entrevistas apenas uma ressalta quem luta pelos outros está faltando naquele canal a cultura da solidariedade. Trocamos esta cultura pela cultura do vitorioso. Religiões pragmáticas e de sucesso incentivam esse discurso:

  Seja um vencedor. Eu cheguei lá. Entre para a nossa Igreja e você vai ser um vencedor... Entrei para essa igreja e agora tenho casa, carro e uma loja... Deus me deu a vitória.

  Podemos argumentar que quem não se sente vencedor não pode ajudar um derrotado. Mas há um perigo muito grande de considerarmos vencedor aquele que está do nosso lado e perdedor quem está do outro. Quando começamos a pensar assim, acaba a solidariedade e começam as escaramuças. Dividimos a vida em dois lados : o lado bom e lado mau. Os bons somos nós e os maus são os que não são como nós. Daí a falar mais dos diabos do que dos santos e a gastar mais tempo tirando demônios que colocando Jesus nos outros, é um passo.  Prestemos atenção no tempo que alguns pregadores gastam falando do demônio e no truque de acusar de parceiros do demônio os que não falam muito contra ele. Esquecem que talvez haja quem não fala muito de pecados e demônios porque gasta mais tempo falando de Jesus e de solidariedade, diálogo fraterno, construção da paz, perdão e misericórdia.

  Felizmente há muitos bons pregadores em todas as igrejas  preocupados em mostrar a maravilhas de Deus no seu povo e nos outros. As palavras PRÓXIMO, OUTRO, POVO DE DEUS precisam entrar com mais freqüência no nosso vocabulário. O quanto menos falarmos de nós e o quanto mais valorizarmos os outros melhor será para a pregação da Palavra. O grande OUTRO nos mandou seu FILHO que veio nos ensinar a ver o outro com respeito e a amar o OUTRO COMO A NÓS MESMOS.

Resgatemos o outro e talvez resgatemos a cidadania. Tiraram o D e o S da palavra Deus e o que sobrou anda fazendo mais estrago do que bem!  Pensemos nisso meditando na Bíblia, um livro que tem mais OUTRO do que EU.

  Abraço e PAZ.

Pe. Zezinho scj